quarta-feira, 24 de junho de 2020

Vulgo Grace – Margaret Atwood

Terminei essa leitura ontem e vou contar um pouco e dizer o que achei.

O livro de Margaret Atwood traz a narrativa de Grace Marks que foi condenada junto com John McDermontt pelo assassinato de Kinnear Montgomery e Nancy Montgomery que ocorreu em 23 de julho de 1843.

Trata-se de uma história de ficção baseada em um crime que realmente aconteceu no Canadá. A autora realizou uma vasta pesquisa sobre o crime e escreveu seu livro com toques reais e adaptou de acordo com a sua imaginação as lacunas da história.
Devo dizer que gostei bastante, visto que é tudo muito bem fundamentado.

O crime ocorreu em julho de 1843 e o julgamento foi realizado em começo de novembro. Somente o assassinato de Kinnear foi julgado, pois os dois acusados, nesse momento, foram condenados a mortes e não foi necessário o julgamento do assassinato de Nancy. Em 21 de novembro McDermontt foi enforcado diante de uma multidão, porém a culpa de Grace dividia opiniões visto que muitos achavam que por ela ter apenas 16 anos, fora manipulada por McDemontt e que não tinha culpa efetivamente de nada.
Diante disso, seu enforcamento foi revogado e ela foi condenada a prisão perpétua.

O livro começa com a Grace em uma penitenciaria.
Pelo detalhamento da pesquisa da autora, na época era comum que as presas ajudassem nas propriedades, este era o caso de Grace. Assim, ela passa o dia na casa do governador, que seria o diretor da penitenciaria. Ela costurava, servia aos convidados, ajudava nos afazeres da casa e de noite retorna para dormir em sua cela.
Mesmo depois de Grace ser julgada e condenada a permanecer presa até a morte, ainda muito se fala sobre o caso, na medida em que muitos acreditavam na inocência da moça.

Um deles é o reverendo Verrenger que faz alguns contatos e recebe a indicação do médico Dr. Simon Jordan. O Dr. visita Grace e inicia uma pesquisa através de muitas conversar para tentar descobrir como tudo se deu para tentar desvendar essas dúvidas.

Nos relatos oficiais, Grace afirma ser culpada, porém, mais tarde, ela alega ter muitos lapsos de memorias, diz não se lembrar de muitas coisas sobre o dia dos assassinatos e que as suas alegações de culpa foram induzidas pelo seu advogado e que na verdade não se recorda de quase nada. Afirma que só disse o que seu advogado disse que deveria dizer.

Isso tudo gera muitas dúvidas a respeito da sua participação nos assassinatos.
Teria sido ela induzida por McDermontt?
Teria ela uma dupla personalidade?
Teria ela um espirito do mau dentro dela?
O que justifica os lapsos de memória?
Estaria ela falando a verdade sobre a amnesia?
Estaria ela se fazendo de louca para se salvar da forca?

Antes de ela estar nessa prisão ela esteve em hospícios e manicômios até chegar onde se encontra.
O Dr. Simon inicia o contato com Grace e temos inicio aos seus relatos.
Grace inicia sua história contanto:
- Como era a vida na Irlanda com seus pais e irmãos;
- Do que os levou a se mudarem para o Canadá;
- De como foi a viagem de navio com sua família;
- Da chegada ao Canadá e das dificuldades enfrentadas no começo;
- Do seu primeiro emprego e da amizade com Mary Whitey;
- De como foi mudando de emprego até surgir a oportunidade de ir trabalha na casa do Sr. Kinnear;
- De como Nancy era, como a tratava e como agia sendo apenas a governanta da casa do Sr. Kinnear e também sua amante;
- Da sua relação com o McDermontt e de como ocorreu tudo até o dia dos assassinatos;
- Relata como ocorreram os crimes e do que ela se lembra;
- Fala de como foram capturados pela polícia depois dos crimes, durante a fuga;
- E por último, explica como fora tratada em todos os lugares por que passou até chegar na penitenciaria.

É importante dizer que são relatos misturados, hora Grace narrando, depois temos Simon narrado um pouco sobre sua vida pessoal, depois sobre o local em que ele está instalado e a sua relação com a senhoria do local. Temos também a troca de cartas do Dr. Simon com alguns amigos e com sua mãe.

O livro aborda muitas questões interessantes, tais como: os manicômios, a loucura, o subconsciente, a histeria, alma X corpo, sonho X realidade
Temos ainda a hipnose presente, onde entra a grande questão do: espiritual X ciência.

Levanta-se a possibilidade de que Grace poderia ter uma dupla personalidade, na perspectiva cientifica (o que era pouco estudado e quase nada conhecido nesse momento), ou ainda a possibilidade de uma possessão na religiosa.
Tudo isso era algo muito novo e desconhecido. As pessoas não tinha clareza disso então pensava-se dentro do que se tinha alcance nesse momento.

Todas essas questões perpassam o livro e entram na análise de até que ponto Grace Marks teria consciência real do que fez. Porque algumas testemunhas afirmaram algumas coisas das quais ela diz não se lembrar. Será que ela realmente não se lembra ou estaria fingindo?
 Trata-se de um caso real que gerou muita discussão em seu tempo porque foram levantadas questões ainda obscuras para o entendimento humano.
Em uma passagem temos a seguinte frase:
“Como e eminente filósofo cientista francês Maine de Biran dissera, havia um Mundo Novo inteiro a ser descoberto, para o que é necessário ‘mergulhar nos subterrâneos da alma’. O século XIX, ele conclui, seria para o estudo da mente o que o século XVIII fora para o estudo da matéria – uma Era de Iluminismo”. (Capítulo 34).

Ou seja, trata-se de uma temática que te faz pensar questões que foram discutidas historicamente e que te faz entender o processo de evolução da mente humano no mundo. Ainda há muito o que se descobrir ainda hoje, agora você imagina em 1860!

O livro nos traz uma história, em essência, real e que fora preenchida conforme a autora achou mais conveniente e termina de um jeito que eu gostei apesar de deixar em aberto.

Digo que a história fica em aberto porque a Margaret pressupõe o que aconteceu, mas realmente o que se deu a gente não tem como saber, porque Grace recebeu o devido perdão depois de quase 29 anos, foi solta, mudou de nome e foi viver a sua vida.

Enfim, é isso, gostei bastante dessa leitura, gosto muito dessa contextualização de tudo e da riqueza dos detalhes e indico.
Algumas pessoas podem achar um pouco parado, porque isso é mesmo, mas pra mim isso não foi um problema, porque ao meu ver é um processo de construção da narrativa, tem gente que gosta e tem gente que não gosta e tá tudo bem, cada um tem seu estilo.
Outra coisa também que gosto, é deste processo de intercalar personagens e é um estilo que me agrada.

Bom resto de semana!!

segunda-feira, 1 de junho de 2020

O Cortiço – Aluísio de Azevedo

Terminei de ler agora a pouco e quis vir comentar sobre essa leitura porque tem alguns pontos bem interessantes. 

Achei esse livro muito interessante. Os primeiro 30% achei meio chato, com uma linguagem esquisita e sei lá, achei chato mesmo. Mas temos que considerar que ele foi escrito em 1890, outros tempos.
Este livro é considerado uma obra-prima de Aluísio de Azevedo, sendo sua principal obra e caracterizado pela estética realista-naturalista na literatura brasileira.

O livro começa com João Romão que é um português que trabalha numa venda/quitanda para um outro português. Ele estava com salários atrasados e o dono do lugar resolve voltar para Portugal e deixa a quitanda para ele como forma de pagamento pelos atrasados.
João Romão tem contato com a Bertoleza, uma negra, escrava que perde seu companheiro. Ele a trás para trabalhar com ele. Ficam “amigados”.
João Romão é muito pão duro, guarda tudo e explora muito Bertoleza. Com o dinheiro que vai guardando vai comprando terrenos e construindo pequenos quartinhos.
Certo dia se muda ali perto outro português. Miranda veio com sua esposa Dona Estela e sua filha pequena.
João Romão e Miranda brigam por uma parte do terreno e não entram em acordo.
Temos os moradores do cortiço, lavadeiras, trabalhadores, gente muito humilde.
João Romão vai comprando e construindo. Adquire uma pedreira. Contrata um cavouqueiro que se chama Jerônimo.
Jerônimo de muda com esposa e filha pequena para o cortiço. Ele é também português, muito trabalhador. Faz João Romão ter mais lucros ainda na pedreira, fazendo os trabalhadores trabalharem mais ainda e sendo esperto no reconhecimento do que precisa ser feito.
Temos Rita Baiana, amigada com Firmo.
Jerônimo se encanta com a mulata, acaba por brigar com Firmo. Jerônimo leva uma facada, fica muito tempo no hospital. Encontra-se encantado por Rita, se afasta da mulher e logo se perde em seus encantos. Quando saí depois de meses do hospital, se arranja com mais dois para dar cabo de Firmo e depois larga a esposa para viver com Rita Baiana. Perde-se nos encantos e se “abrasileira”. Deixa de mandar dinheiro para esposa e para filha, que se perdem em meio a nova condição.
Temos Pombinha, uma menina muito doce e querida por todos. Ela saber ler e escrever, ajuda a todos no cortiço com cartas e notícias. Ainda não “virou mocinha”. Tem um noivo que só espera por isso para casar-se com ela. Quando isso acontece, a mãe espalha a notícias aos quatro ventos. Ela se casa e as duas vão embora do cortiço.
Temos ainda Léonie, que é uma prostituta que sempre visita o cortiço. Gosta muito de Pombinha e entre elas acontece algo numa vista que achei estranho e assusta a pobre Pombinha.
Miranda consegue um título. João Romão fica cheio de inveja.
Começa a se vestir melhor e fazer de tudo para adquirir um título também.
Resolve tentar casamento com a filha de Miranda.
Um amigo, Botelho, hospedado na casa de Miranda o ajuda a conseguir tal proeza.
Só que existe um atrapalho, precisa dar cabo de Bertoleza, pois não lhe caí bem ser sido “amigado” de tal escrava. Pensa em mata-la.
Botelho lhe da um conselho, se a entregar ao antigo dono, visto que ela não era negra alforriada. Faz isso e essa parte acaba triste.
O casamento fica arranjado e logo o título que tanto almeja lhe chega.
Sobre Pombina, depois de dois anos ela não aguentou e se separou. Teve alguns amantes, o marido não aceitou e logo foi viver com Léonie. Sua mãe quase morreu de desgosto, mas teve que aceitar.
Pombinha e Léonie visitam o cortiço e já tem em vista o cultivo de uma nova prostituta.

De modo geral é esse o enredo da história.
Achei interessante e gostei muito de algumas partes.
Uma delas foi quando um dos moradores do cortiço procura Pombinha e lhe pede que escreva uma carta a mulher que ele havia expulsado de casa porque a pegou com outro homem no mato e ela disse que queria ter um filho para virar ama de leite das senhorinhas para ter uma renda para sobreviver. A mulher disse ao marido que ele nunca a “embuchou” então ela daria seu jeito. Depois disso o homem a expulsou, mas o tempo passou e ele sentia tanta saudade dela e a queria de volta mesmo ela tendo o traído e engravidado de outro. Disse não se importar, que a perdoaria porque não queria mais ficar sem a mulher. Depois de escrever a carta a Pombinha dialoga com seus pensamentos e reflete sobre o “poder” que uma mulher pode ter sob um homem. É neste momento que ela passa a não querer mais se casar com o Costa, seu noivo. Ela sabe que precisa se casar para ter uma vida melhor, mas tem total clareza que sente repulsa por ele.

Outra parte interessante é perceber como João Romão busca sempre fazer de tudo para alcançar o que ele quer. Pão duro ao ponto de numa situação em que ocorre um incêndio no cortiço, em que alguns morados morrer por isso, ele rouba umas garrafas de um morador porque percebe que elas estão cheias de dinheiro dentro. Ele recolhe todas as garrafas e passa a noite a contar o dinheiro do moribundo falecido.

Por fim: achei o livro muito bom, cheio de facetas e que mostra a realidade como ela era na época em que fora escrito. Mostra a miséria do povo tentando sobreviver, a ambição de João Romão acima de tudo sempre explorando ao máximo todos os humildes morados do cortiço. Mostra ainda de onde vem alguns jargões utilizados ainda hoje, tais como: “mas são umas lavadeiras mesmo... “ Porque no cortiço havia muitas lavadeiras e elas fofocavam sobre tudo e todos que por ali passavam. Não deixavam nada passar, nunca e sempre estavam metidas em toda e qualquer confusão.

Enfim, é isso.
Vale muito a pena a leitura.
Eu só acho que exigir que adolescentes leiam no ensino médio é meio inadequado, eu diria, porque tem algumas passagens que exigem maturidade que, talvez, adolescentes não tenham ainda nesse momento da vida. E também, é uma leitura difícil, chatinha no começo, nem todo mundo vai apreciar, eu diria, menos ainda adolescentes.
Eu na adolescência não lia nada, achava tudo chato. Eu não tive que ler o cortiço, mas se tivesse, acho que provavelmente teria enrolar porque não teria me atraído muito não. Enfim, é isso!!

Boa noite, boa semana!